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A Proposta (The Proposal, 2009)

Julho 10, 2009

A função de uma comédia romântica não é ser uma obra-prima, mas é interessante perceber como os críticos tentam sempre desmoralizar este estilo. Para assistir a um filme assim é necessário baixar a guarda, abrir a mente e “let it flow”.

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Entreter é a proposta de “A Proposta”, um exemplar bacanérrimo do que estou falando aqui. Sem sair do lugar comum, o longa de Anne Fletcher (Vestida pra Casar) é bastante previsível, mas nem por isso menos divertido: o roteiro de Peter Chiarelli rende piadas ótimas (e há também as sem graça), Sandra Bullock volta á boa forma desde Miss Simpatia, Ryan Reynolds prova que tem timming (ainda que pouco desenvolvido) para as comédias.

Margaret Tate (Bullock – “Amor à Segunda Vista”, “A Casa do Lago”, “Forças do Destino”) é uma verdadeira bruxa. Editora de uma poderosa empresa, ela ive apenas para o trabalho e inferniza a vida de seus assistente Andrew Paxton (Ryan Reynolds – “Blade”, “Um segredo entre nós”). Prestes a ser deportada para o Canadá, a durona faz uma proposta nada convencional a Andrew, o que culmina em um divertido e revelador final de semana no alasca. Cativante até não poder mais, o filme só peca pelo desfecho que, confesso, decepciona um pouco, mas também não apela para o meloso “happy end” tradicional. para sanar o problema, a diretora parece ter apelado para os créditos, onde traz cenas de desdobramento do longa.

A trama faz um mix das receitas de uma boa comédia romântica: dois belos protagonistas, choques culturais, confronto de sentimentos, piadas apolíticas, situações inusitadas que rendem boas gargalhadas e o típico blá, blá, blá. A comédia romântica é um filão no qual Bullock sente-se em casa, e Reynolds não fica atrás. Graças a eles “A Proposta” tem sido um grande sucesso em bilheteria. Merecido!
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Genial na simplicidade

Julho 3, 2009

Sinopse: Garota resolve abandonar o namorado e fugir para lugar desconhecido. Antes de partir, ela decide encontrá-lo, mas eles têm apenas uma hora para fazer um balanço bem humorado de suas vidas.

E é isso mesmo o que o filme é, e ao que se propõe. Simples, falando de assuntos mais simples ainda, de maneira também simples, mas com um toque de humor, sarcasmo, nerdice e muita vontade de fazer dar certo.
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A Era do Gelo 3

Julho 3, 2009

A maior surpresa da continuação de A Era do Gelo não é a trilha sonora ou o personagem Scrat. A trama é que agrada, por ser redondinha, amarrada e cheia de momentos particularmente deliciosos de ver – ao lado dos mirins ou não.

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Continuam as lições de amizade (claaaaro), as maluquices de Sid e a obsessão de Scrat pela sua bolota fujitiva, tudo bem misturado em uma história que se aventura por um mundo subterrâneo desconhecido, onde os personagens percebem (mais umavez) o quanto valem um para o outro.
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The last one’s

Junho 19, 2009

Medos Privados em Lugares Públicos (2006)é um filme superestimado! Pronto, falei. Não que seja um filme ruim, na verdade é uma poesia, porém a obra de Alan Resnais guarda semelhanças com outros filmes como Simplesmente Amor, Babel, Crash e até mesmo Pulp Fiction. Talvez nesse último eu tenha viajado demais, mas contar uma história de edesconhecidos entrelaçadas não é novidade nenhuma. Conta pontos mesmo é o ótimo time de atores e a fotografia sublime.

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Super elogiado – e com razão – pela crítica especializada tem sido o ótimo Intrigas do Estado: . Clara homenagem (ou referencial) a “Todos os homens do presidente” (1976), o longa de Kevin MacDonald é bom, interessante,ritmado mas é aquém de seu último trabalho (O úlimo rei da escócia). O que chama a atenção aqui é o olhar para o jornalismo dos dias hoje, presonificado pelos personagens de Russel Crowe, Helen Mirren e Rachel McAdams. Ben Afleck é um ator insípido, e aqui continua incolor.

fazia tempo que o cinema nacional não via uma comédia descaradamente machista e realmente engraçada (ainda que cansativa em alguns momentos). A Mulher Invisível cumpre muito bem a proposta de divertir, alienar e nos fazer esquecer as babaquices do politicamente correto. Selton Mello, Luana Piovani e Vladmir Brichta fazem dessa produção, algo imperdível. De brinde, o longa traz ainda Marcelo Adnet em um ponta divertidíssima.

A saga de John Conor parece não ter fim. Com Christian Bale, agora no papel principal, O Exterminador do Futuro – A Salvação veio cheio de marra mas não disse a que veio. A ficção de McG não supera a original, mas é interessante e cumpre a cartilha de entretenimento. A aventura se passa em 2018, quando John lidera a resistência humana contra a Skynet e seu exército de Exterminadores. Arnold Schwarzenegger e seu T-800 aparecem – ainda que digitalmente – no filme.

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Traídos pelo Destino (Reservation Road, 2007)

Maio 9, 2009

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Terry George tinha em mãos uma história interessante, ainda que totalmente passional, sobre os valores humanos. Apesar disso, o roteiro perdeu seu brilho em uma direção maniqueísta e apelativa, que encontra em seu excelente cast, a principal razão para não ser esquecido.

O ambiente doméstico é sempre um bom pano de fundo para o cinema abordar tragédias de todo tipo, onde a desestruturação familiar traz à tona assuntos mal resolvidos e também cria outros maiores ainda. “Traídos pelo Destino” usa e abusa dessa fórmula ao contar os desdobramentos da acidental e trágica morte de Josh Leaner (Sean Curley), um garoto de dez anos, na vida de seus pais, o professor Ethan (Joaquin Phoenix) e sua esposa A Grace (Jennifer Connelly). Inconformados com a ação da polícia e sem nenhuma pista do culpado, o casal resolve contratar os serviços de uma firma de advocacia. É lá que o destino cumpre seu papel e acaba colocando-os frente a frente com Dwight Arno (Mark Ruffalo), o motorista culpado pelo acidente que vitimou Josh.

“Traídos pelo Destino” é, sem dúvidas, um filme sensível, ainda que maniqueísta, onde discute as nuances da dualidade humana. De um lado temos Ethan, dolorido pela perda do filho, personifica de forma muito lúcida o desespero dos que não conseguem ir em frente com a vida, após uma grande tragédia. Do outro, somos apresentados a Dwight, um homem dominado pelo remorso, que vive seus dias atormentado pelo arrependimento, pela vergonha e pela dúvida de seus atos. No meio está a personagem Grace, uma mulher machucada que tenta colar os cacos quebrados de sua família e seguir em frente. Enquanto a tragédia se desenrola, a trilha sonora de Mark Isham, fraca e sem surpresas, pontua partes da história, aliada a uma fotografia indefinida.

Escrito a quatro mãos pelo diretor Terry George (duas vezes indicado ao Oscar de Roteiro por Em Nome do Pai e Hotel Ruanda) e John Burnham Schwartz (autor do romance “A Estrada da Reserva”, em que o filme é baseado), a trama levita em três pontos, mas não se fixa em nenhum. Primeiro, tenta se aprofundar em questões jurídicas ao se referir a possíveis soluções para “resolver”, ou achar culpados pela morte do garoto. Depois explora o social, na forma como os envolvidos passam a interagir com a comunidade onde vivem e por último, parte para analisar a intimidade e os dramas particulares de cada um, os demônios que criam para suas vidas e como a partir daí o futuro lhes parece. O problema é que apesar de ter em mãos bons instrumentos de trabalho, George não consegue transferir a responsabilidade central da história para lugar algum. Talvez por isso a trama acaba, aos poucos, tombando para uma reunião de clichês e para um desfecho que se coloca como apoteótico e redentor.

O diretor opta claramente por uma estrutura clássica, bem recortada, onde sobra dramalhão e falta ousadia. Talvez por isso, em vez de chocar ou deixar o espectador em transe, arranca lágrimas e sensações de déjà vu. Senão, vejamos: O objetivo que Leaner traça para si a partir da morte de Josh é egoísta e desequilibrado, onde nada mais tem sentido. A arbitrariedade da sua busca por justiça é obsessiva, levando sua mente a uma jornada emocional que atinge todos à sua volta, inclusive sua filha Emma (Elle Fanning). Esse comportamento é um desafio para sua esposa Grace, que tenta aos poucos realocar a vida em família para a nova realidade. Enquanto isso, Dwight luta com as retaliações que podem acometê-lo ao assumir sua culpa e de como isso pode afetar a sua relação com o filho Lucas (Eddie Alderson). E então? É ou não é uma sensação familiar?

Apesar da excelente introdução, o filme incomoda quando decide mostrar o sofrimento dos núcleos principais da história através de comparações. É totalmente despropositado querer expor contradições que são óbvias para o espectador, através dos maneirismos dos personagens, de seus cotidianos e suas personalidades, ou mesmo abusando de casualidades dentro da trama de uma forma totalmente equivocada. A narrativa é manipulativa – em muitos aspectos, de forma gratuita – quando é notório que não trata-se de uma questão de bem e mal, mas sim de fatalidade e oportunidade. E dessa forma, por vezes apelativa, a história caminha para uma reviravolta que impressiona mais pela sinceridade da atuação do cast, do que pela tentativa velada de perdão que a direção tenta impor.

“Traídos pelo Destino” é o típico filme que encontra nas interpretações uma boa razão para ser lembrado. Joaquin Phoenix vive aqui um de seus melhores desempenhos. O ator soube utilizar sentimentos como raiva, impotência e obsessão de forma honesta e consegue fazer deste, um grande momento da sua promissora carreira. Jennifer Connelly encontra a dose exata de emoção para a sua Grace, manchada apenas pelas falhas da condução narrativa, já que há momentos em que as discussões do casal Leaner soam falsas e desprovidas de qualquer emoção. Realmente irretocável está Mark Rufallo, com um personagem complexo ele faz uma interpretação enérgica e comovente. E enquanto Mira Sorvino (ex-mulher de Dwight) passa incólume durante toda a projeção, Elle Fanning (irmã de Dakota Fanning) ganha pontos em uma atuação equilibrada.

“Traídos pelo Destino” fica aquém do esperado em muitos sentidos. Peca pela falta de sutileza, peca ao utilizar a fórmula mais fácil ao coração do público, peca por parecer salvo na sala de edição, peca por manipular quem o assiste. O filme só ganha vida através dos personagens e mesmo não sendo uma obra-prima, também não é uma produção descartável. Tem seus méritos… E eles são justos!

Nota: 6,0 (Especialmente para o Portal Cinema com Rapadura)

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Minha vida sem mim (My life without me, 2003)

Maio 9, 2009

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Mesmo tratando de um tema pesado, com personagens propositadamente dotados de forte carga dramática, o drama “Minha vida sem mim” é construído de forma moderada e sutil. O roteiro, até então nada especial, ganha contornos mais amplos calcado na sensibilidade das interpretações e no olhar da diretora Isabel Coixet, que leva o espectador a uma jornada de questionamentos em relação à vida e à morte, mas sem ser gratuito.

Num dia você está bem; no outro, recebe a notícia de que sua vida tem dia e hora para acabar. O que fazer então? Essa é a pergunta que Ann (Sarah Polley), uma jovem de 23 anos, faz a si mesma ao descobrir, após um mal-estar, que um câncer no ovário se alastrou para o fígado, lhe dando no máximo três meses de vida. Contrariando o óbvio, ela opta por um caminho pouco convencional: não conta a ninguém sobre sua doença e faz de uma lista, a motivação para aproveitar seus últimos momentos.

Lidar com a possibilidade da morte não é uma coisa fácil, seja na vida real ou no cinema a perda é sempre brutal e dolorosa. Sempre relacionada a algo assustador e soturno, em “Minha vida sem mim”, a diretora Isabel Coixet reveste a morte com uma áurea mais suave e até mesmo romântica, sem esquecer a realidade. Ann ganha a vida como faxineira noturna, mora em um trailer no quintal da casa de sua mãe (Debbie Harry) e vive feliz, apesar das dificuldades, ao lado do marido Don (Scott Speedman) e das duas filhas pequenas. Saber que está prestes a morrer abre para ela uma oportunidade de realizar desejos e sonhos esquecidos, seja por falta de oportunidade ou mesmo, coragem. Entre as suas “coisas para fazer antes de morrer” está dançar na chuva, fazer amor com outro homem que não seja o marido, arrumar uma esposa para ele, ir visitar o pai na prisão, dizer o que pensa e gravar mensagens de aniversário para as filhas. É a partir da realização dessa lista, que ela começa a pontuar como será a vida dela, sem ela.

Aos poucos Ann vai realizando seus objetivos e seguindo com sua rotina. Um dia conhece um homem triste, assim como ela, e com ele descobre a paixão, outro tipo de amor que não tem com o marido. Lee (Mark Ruffalo) é um homem machucado e introspectivo, a imagem do poeta romântico que desiste de viver por causa de uma relação não correspondida. Sua solidão é visível não apenas no aspecto emocional, mas principalmente no plano físico, já que vive em uma casa sem móveis e de paredes descascadas. Em “Minha vida sem mim”, temos a impressão de que todo mundo é triste, já que a felicidade mostrada é sempre como um sentimento de conformismo, de rotina. Não há um só personagem realizado, todos pressupõem uma sina, um desejo incompreendido, um sonho desfeito, uma insatisfação. Nesse ponto é importante pontuar o trabalho da fotografia (Jean-Claude Larrieu) e da direção de arte (Carol Lavallee) na utilização da luz e da cor na construção dos personagens, tudo de forma a dar coesão ao contexto visual.

Ao mesmo tempo em que vive um romance com outro homem, Ann prepara o terreno para que a vida siga bem sem ela, transformando o presente (dando sentido à vida de alguém), preparando o futuro (arrumando a sua família) e remendando o passado (na relação com os pais). É bonito e ao mesmo tempo doloroso ver que suas escolhas provocam transformações não apenas nela, mas em todos à sua volta, sejam imediatas ou não. Mesmo sabendo que não está destinada a grandes coisas, quer deixar sua marca no mundo, nas pessoas, quer ter aquela sensação de que sua vida não foi em vão. Ann é uma moça simples, tolida pela vida, pelas suas escolhas, pela gravidez indesejada, por um casamento precoce, pela perda o convívio do pai (Alfred Molina), pela amargura da mãe, pela ingenuidade dela mesma. E então se dá a mágica da identificação com a trama, por que não dá para ficar indiferente aos paradoxos cruéis da vida.

Coixet trabalha com os arquétipos de forma brilhante, seja na figura da mãe, do pai, do amante Lee, da melhor amiga (Amanda Plummer) e da própria protagonista. Ela é a adolescente resignada, o marido é o ingênuo, o amante significa a fantasia, a mãe é a eterna bruxa má do Oeste. Sara Polley é a espinha dorsal da fita, responsável por seus mais belos momentos e criando um equilíbrio entre a relação com Speedman (excelente) e Ruffalo (soberbo). Como brinde o público ainda recebe a excelente performance da ex-Blondie Deborah Harry como mãe da protagonista, uma mulher amargurada e queixosa, e Alfred Molina, sempre competente com um pai ausente em busca do amor tardio de sua única filha.

Mesmo tratando de um tema pesado, com personagens propositadamente dotados de forte carga dramática, o drama, baseado no conto “Pretending the Bed is a Raft”, de Nancy Kincaidv, é construído de forma moderada e sutil. O roteiro, até então nada especial, ganha contornos mais amplos calcado na sensibilidade das interpretações e no olhar da diretora Isabel Coixet, que levou meses escolhendo e preparando o elenco do filme, e cercando-se de bons profissionais. Apoiada pela produção mais que especial da El Deseo (de Agustín e Pedro Almodóvar) e talvez pela influência do mestre, o filme seja pontuado de belíssimas referências cinematográficas, principalmente na cena em que cenas do filme “Almas em Suplício” (1945) aparecem como pano de fundo de uma discussão entre Ann e sua mãe. Ou ainda a homenagem a “O Pescador de Ilusões” (1940), na seqüência do supermercado, tão bem conduzida ao som da canção “Senza Fine”, de Gino Paoli.

“Minha vida sem mim” é um filme que acorda, que desestabiliza, que nos diz o quanto somos impotentes e um pouco paranóicos com relação a muitas coisas na vida. Desmistifica um pouco a morte e mostra que a vida não precisa ser tão cheia de seriedade ou tão cheia de comédia para ser vivida. O interessante é que todas as reflexões são passadas de forma comovente, às vezes triste, sem lições de moral, sem sermões infinitos, às vezes metaforicamente, outras não. E enquanto a protagonista vai morrendo, ela vai descobrindo a vida, assim como o espectador. Tudo nos leva a uma jornada de questionamentos, a uma revisão de nossas prioridades e a perceber, que mesmo com ou sem a nossa presença, a vida continua.

Nota: 10,0 (Especialmente para o Portal Cinema com Rapadura)

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Reflexos da Inocência (Flashbacks of a Fool, 2008)

Abril 2, 2009

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Se Daniel Craig queria sair do estereótipo “Jamesbondiano”, este ainda não é o filme que lhe garantirá tal feito. Mesmo apresentando uma narrativa redondinha e com bons momentos aqui e acolá, o primeiro longa de Baillie Walsh fica aquém do que poderia ser, embora apresente um personagem honesto, como há tempos não se vê na telona.

“Reflexos da Inocência” (Flashbacks of a Fool, 2008) é um filme de iniciação para seus maiores envolvidos. Este é o primeiro longa de Baillie Walsh, que vem de uma carreira bem sucedida em videoclipes. Para o ator Daniel Craig o filme também tem um gosto novo, já que é o seu primeiro trabalho como produtor. Tratando-se de uma estréia, ambos se saíram bem ao contar uma história que apesar de não ser nenhuma novidade, chama a atenção pela estética cuidadosa, pelas ótimas atuações e pelas referências musicais.

Joe Scott é um astro de Hollywood que há muito não está sob os holofotes. Com uma carreira decadente, amarga fracassos e o esquecimento da mídia. Aos 40 anos, viciado em cocaína e em si mesmo, ele já não é a estrela de outrora. Seus dias resumem-se a sexo, drogas e à companhia de uma empregada, a única que parece ainda lhe dispensar alguma consideração. Ao ser chutado pelo seu agente e ser informado da morte de um de seus melhores amigos é forçado a encarar seu passado, Scott reencontra tudo o que deixou pra trás inclusive um tragédia, responsável por mudar os rumos de sua via naquela época.

O jovem Joe (Harry Éden) vive sua infância e adolescência ao lado de seu melhor amigo (Max Deacon) no litoral da Inglaterra. Inseparáveis, compartilhavam aventuras e sonhos típicos da idade, mas essas cenas servem apenas para fazer o contraponto com o que ele se tornou no futuro e justificar suas ações do passado. É no âmbito familiar que as coisas se desenrolam para o personagem, que, como todo adolescente descobrindo sua própria sexualidade, não consegue dizer não às investidas de uma mulher casada e muito mais velha. Essa relação, proibida e baseada nas necessidades pessoais de cada um, resulta em uma conturbada reviravolta na existência de ambos.

O filme aborda temas tensos que envolvem família, escolhas, auto-destruição, desejo e perdão. Mas apesar disso, ainda acha espaço para fazer uma leitura ao estilo de vida de muitas celebridades da meca cinematográfica, mostrado no estilo de vida de seu personagem principal e na forma como as pessoas o enxergam, comicamente mostrado em uma cena de suposta agressão física à sua empregada. Outro ponto forte é quando, ainda adolescente, Joe e o seu grande amor vestem roupas a lá Ziggy Stardust e dublam “If there’s something” da banda setentista Roxy Music. É “glam” e saudosismo de encher os olhos!
Quantos às interpretações, todos os olhares se voltam a Craig, e essa preferência é justificável. Ele consegue fazer um artista arrogante, egoísta, fútil e detestável, um homem sem motivações, insatisfeito consigo mesmo, e que reflete isso em cada palavra, ação e pensamento. Quando o desfecho do longa se aproxima, o sentimento do público se transforma junto com a mudança que Scott realiza em si, e quem pelo menos conhece um pouco de cinema, sabe que é raro um ator conseguir mudar a opinião do público após construir um perfil de personagem.

O roteiro escrito por Walsh é simples e não se arrisca em auto-piedade excessiva, divagações ininterruptas ou verborragia por parte do elenco principal. É nítida a preocupação do diretor em conduzir a história de uma forma sensível. Muitos momentos emocionam, nos levam ás lágrimas, mas não de uma forma gratuita. A fotografia, de encher os olhos, transita entre cores fortes e suaves, brincando com os contrastes nos momentos de maior impacto, e trabalha bem na edição. Ex-diretor de videoclips, Walsh manteve vivos ainda alguns “vícios”, entre eles o bom gosto para a trilha sonora (Bowie nunca foi tão bem utilizado), apesar de às vezes, pecar pelo excesso.

Honesto e sensível, “Reflexos da Inocência” poderia ir mais além. O desfecho simplista poderia ser mais “des-construído”, talvez mostrando o que Joe conseguiu fazer com essa tal “reflexão” de que trata o título. Sua redenção, ainda que bela, é quase instantânea, o que deprecia um pouco o clímax da história, deixando o público receoso quanto à súbita mudança.

Resumindo, o saldo é que o filme foi feito para mostrar que o ator, que sofre do estigma de ser 007, encontrou aqui um papel que lhe faz jus e mostra que tem talento, muito talento.

* Especial para o Portal Cinema com Rapadura

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A Malvada (All about Eve, 1950)

Março 25, 2009

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A ambição sempre se mostrou um tema rico para a literatura, o teatro, e claro, para o cinema. É ela a personagem principal de “A Malvada” (All about Eve), de 1950, motivadora de jogos de interesses, mentiras e traições. Com um elenco afiadíssimo e diálogos memoráveis, Joseph L. Mankiewicz conseguiu fazer filme não apenas irretocável, mas principalmente, memorável: Um clássico em todos os sentidos!

Do que uma pessoa é capaz para atingir seus objetivos? O que ela diria? O que esconderia? Mentiria? Fingiria ser outra pessoa? Para Eve Harrington (Anne Baxter), dona de um rostinho angelical e de uma voz doce, todas as respostas servem. Sonhando com o sucesso nos palcos londrinos a moça simples, de passado obscuro, consegue aproximar-se de seu grande ídolo, a estrela da Broadway Margo Channing (Bette Davis), a fim de atingir seus objetivos, mesmo que para isso tenha que transformar-se em alguém que não é.

Desde o primeiro filme falado do cinema, em 1927, nunca uma história sobre ambição, jogo de interesses, inveja, obsessão e intrigas foi contada de forma tão definitiva. Talvez, o grande trunfo de “A Malvada” seja a sensação de Deja Vú, a de que você conhece ou conheceu alguém como Eve, a sensação de que você conhece essa história e sabe como ela termina. E por falar de temas tão próximos à realidade e às relações sociais que estabelecemos, esse clássico da década de 50 continua tão atual e ainda tão elogiado.

Dissimulada tal qual uma Capitu de Machado de Assis, Eve infiltra-se lentamente, entre sorrisos e gentilezas infindáveis, na intimidade e no dia-a-dia da atriz, compartilhando detalhes íntimos de sua vida e de sua rede de relacionamentos. Aos poucos a mascarada devoção de Eve começa a incomodar Margo, que é incompreendida pelos amigos, dando início a uma sucessão de fatos meticulosamente arquitetados que culminam em sua ascensão meteórica como atriz.

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O drama de 1950 escandaliza ao mostrar a manipulação e o jogo de interesses por trás da fama, sem dar limites à maldade humana. Eve não se importa com nada e nem com ninguém. Seu perfil é um ótimo exemplo da loura má, perigosa, destruidora de relações amorosas, manipuladora e falsa, capaz de tudo para chegar aonde quer, desprovida de caráter e compaixão. É através de seu comportamento inescrupuloso que o roteiro coloca em pauta questões importantes na vida de qualquer ser humano, como as relações sociais, as máscaras que usamos, a busca pelo sucesso, a inveja e o talento para a malícia.

Margo está envelhecendo, perdendo terreno. Eve representa o perigo, o novo e o belo. Margo sabe que deve ser substituída, sabe que assim como é nos palcos é na vida, não ficará no topo para sempre, pois sempre haverá alguém melhor, mais bela e mais esperta. Sua preocupação torna-se então, resistir da melhor forma possível e se retirar dos holofotes com dignidade, abrindo espaço para outras, mesmo que essas outras sejam “Eves”. Desmascarada, a anti-heroína é obrigada a viver prisioneira das mentiras que criou e a encarar uma jovem que, assim como ela, também busca o estrelato. É através da ambição dela que Eve percebe que em breve vai aprender o que Margo já sabe.

Ao dissecar os pecados humanos em tela, tendo como pano de fundo o bastidores “afiados” do show business, o filme de Joseph L. Mankiewicz tem em seus diálogos e na construção de seus personagens seus pontos fortes. Bette Davis soube aproveitar muito bem a fama de má lhe caia à época, fazendo uma Margo temperamental, explosiva e deliciosamente irônica, um estopim de saias. Suas falas e comportamento, sempre debochados e nocivos divertiam e machucavam a todos na mesma proporção. Anne Baxter faz uma Eve à altura: primeiro apresenta-se gentil e inocente, para revelar-se, sorrateiramente, traiçoeira, vil e obstinada, ou seja, uma antagonista perfeita. Para lhe fazer companhia, George Sanders interpreta Addison De Witt, um sedutor e refinado crítico de teatro que acaba sendo tão perigoso quando a própria Eve. Celeste Holm, Hugh Marlowe e Gary Merrill arrematam um elenco fabuloso, que ganha um “plus” com uma participação tímida, ainda que inesquecível, de Marilyn Monroe (em seu sexto filme), como a aspirante Claudia Caswell.

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Joseph L. Mankiewicz, mais conhecido por “Cleópatra” (Cleopatra, 1963) pode ser definido como um diretor sentimental e um roteirista e produtor de mão-cheia. Foi assim que chegou a dirigir 48 filmes e produzir mais de 20 para a MGM e Fox, na época, duas gigantes do cinema americano. Visionário, Mankiewicz supervisionou de perto “A Malvada” (baseado em um caso verídico publicado na revista Cosmopolitan em 1940): cuidou do roteiro, da direção e da escolha do cast. O elenco principal e definitivo, que viria a ajudar o filme a ser um clássico, não era a primeira opção do diretor, que chegou a cogitar nomes como Marlene Dietrich, Claudette Colbert, Ingrid Bergman, Ronald Reagan e Zsa Zsa Gabor.

A narrativa não-linear (em flashbacks), utilizada à exaustão hoje, foi na época uma grande ousadia, que inclusive vinha de Welles em Cidadão Kane. A mão segura de Mankiewicz e sua preocupação em privilegiar as expressões dos personagens, em momentos cruciam da trama, são também pontos de destaque em “A Malvada”. O diretor contou ainda com a ajuda de Alfred Newman, um dos maiores compositores americanos, para compor uma trilha sonora presencial. O ar glamoroso que cerca a vida do show business foi reforçado pelo trabalho cenográfico e pela extrema elegância do figurino de Edith Head, um deleite à parte, e não à toa ganhador do Oscar daquele ano. O longa levou 6 prêmios dos 14 a que concorreu, entre eles o de Melhor Filme, Direção, Roteiro e Ator Coadjuvante para George Sanders.

Com tantos requisitos – e sem exageros – “A Malvada” tornou-se um dos filmes mais inspiradores do cinema. “Tudo sobre minha mãe” (Todo sobre mi madre, 1999) do cineasta Pedro Almodóvar é um bom exemplo do fascínio que o longa de Mankiewicz alcançou. Mesmo após 59 anos o longa continua sendo uma bela referência iconográfica. Tal qual um bom vinho, fica melhor enquanto envelhece: cada vez mais inteligente, irônico e afiado. Para ver, e rever, e rever, e rever e rever…

* Especial para o Portal Cinema com Rapadura

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Dogville. Bagunçou em mim!

Fevereiro 28, 2009

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Se há um diretor controverso, este é Lars Von Trier. O dinamarquês, um dos criadores do Dogma 95, usou pouco do manifesto em Dogville, mas foi o suficiente para fazer barulho em 2003, ao contar uma história baseada na teatralidade e nas interpretações sobre o que o ser humano tem de melhor e de pior.

Para entender a história que Von Trier (Ondas do Destino , Dançando no Escuro) quer nos contar é preciso se despir de qualquer moral. Por outro lado, o drama que se apresenta não é e nem deve ser percebido com amoral. Confuso? Pois é. Esse é o grande objetivo do diretor ao narrar a história da jovem Grace (Nicole Kidman), que perseguida por gângsters, acaba chegando à esquecida e sombria Dogville. Precisando de abrigo, ela submete-se aos caprichos, a princípio inocentes, da pequena comunidade, até encarar os fatos como realmente são e ter uma participação decisiva sobre suas vidas no final dessa odisséia.

Sim, odisséia, por que na verdade o diretor nos conduz a um estudo profundo, ainda que parcial, sobre o homem, seus questionamentos e suas motivações em relação a outros seres humanos. Seus defeitos, qualidades e sua falsa bondade. O roteiro sobe explorar todas as idéias e conceitos exaustivamente debatidos e comentados por filósofos desde os tempos antigos. Para ser mais atual, Nelson Rodrigues brilhantemente soube exemplificar em poucas palavras, o que Dogville tenta em quase 3 horas de projeção. “Não há nada pior do que a crueldade do bom. Nas suas maldades excepcionais, o bom é capaz de invadir um berçário e chupar o sangue das criancinhas como groselha”.

Mas Dogville não divide opiniões apenas quanto ao roteiro. O fato de fazer com que a audiência se perceba em um teatro, com o passar das horas torna-se até mesmo claustrofóbico. Talvez pelo jogo de luzes, pelo cenário quadrado e limitado, pela sensação de vazio a ser completado ou pela ausência de pormenores visuais. A verborragia dos personagens também contribui para essa sensação. Impossível não se sentir pressionado. Pressionado a tomar um lado, pressionado a reagir com o que acontece na tela, pressionado a se colocar como ser humano também, passível de bondade, ainda que disfarçada, e maldade extrema.

A direção não inova em enquadramentos ou passeios de câmera. O forte é a concepção como um todo e isso Von Trier constrói em cada cena. Quis chocar, confundir e questionar. E conseguiu. Por um lado, Dogville é uma idéia brilhante, por outro, um exercício de arrogância, qualidade, aliás, tão discutida no filme, e levada à prática por Von Trier. Seu trabalho é pretensioso sim, e por isso há divergências de olhares, de opiniões, de entendimento. Pessoalmente, acho este trabalho o mais bem colocado de sua carreira. Indigesto, brilhantemente – e de forma ousada – moldado e mais que nunca, necessário.

O elenco, encabeçado por Paul Bettany (Thomas Edison Jr) e Nicole Kidman (Grace) é mais um adendo á obra. O personagem Tom, um escritor cheio de teorias e sedento por uma afirmação moral e pública, demonstra vaidade e nobreza com o mesmo sentimento. Kidman deveria ter ganho outro Oscar por sua atuação nada caricata e convincente, e Lauren Bacall só reforça o óbvio: o tempo não tira o talento de que já é magistral, seja em qualquer papel, ou em qualquer época.

Dogville fala de abnegação, de altruísmo, instinto, vida em sociedade, e também o contrário disso, o oportunismo, a vaidade, a maldade, características intrínsecas a todo ser humano. Tudo isso é retratado seja pela desconfiança dos moradores da cidadezinha, pelo abuso sexual cometido para com Grace, ou na maledicência alheia. No fundo, primeiro o roteiro constrói personagens, o caráter. Em seguida os destrói, tira a máscara. Enquanto isso, “re-constrói” a personagem da Nicole Kidman, ainda que em pequenas nuances e com uma “re-estruturação” final brutal e apoteótica.

Dogville merece ser visto, comentado e dissecado. Sem nenhum preconceito estético, moral ou filosófico. Nada mais, por que Dogville é uma experiência. Enjoy!