Se há um diretor controverso, este é Lars Von Trier. O dinamarquês, um dos criadores do Dogma 95, usou pouco do manifesto em Dogville, mas foi o suficiente para fazer barulho em 2003, ao contar uma história baseada na teatralidade e nas interpretações sobre o que o ser humano tem de melhor e de pior.
Para entender a história que Von Trier (Ondas do Destino , Dançando no Escuro) quer nos contar é preciso se despir de qualquer moral. Por outro lado, o drama que se apresenta não é e nem deve ser percebido com amoral. Confuso? Pois é. Esse é o grande objetivo do diretor ao narrar a história da jovem Grace (Nicole Kidman), que perseguida por gângsters, acaba chegando à esquecida e sombria Dogville. Precisando de abrigo, ela submete-se aos caprichos, a princípio inocentes, da pequena comunidade, até encarar os fatos como realmente são e ter uma participação decisiva sobre suas vidas no final dessa odisséia.
Sim, odisséia, por que na verdade o diretor nos conduz a um estudo profundo, ainda que parcial, sobre o homem, seus questionamentos e suas motivações em relação a outros seres humanos. Seus defeitos, qualidades e sua falsa bondade. O roteiro sobe explorar todas as idéias e conceitos exaustivamente debatidos e comentados por filósofos desde os tempos antigos. Para ser mais atual, Nelson Rodrigues brilhantemente soube exemplificar em poucas palavras, o que Dogville tenta em quase 3 horas de projeção. “Não há nada pior do que a crueldade do bom. Nas suas maldades excepcionais, o bom é capaz de invadir um berçário e chupar o sangue das criancinhas como groselha”.
Mas Dogville não divide opiniões apenas quanto ao roteiro. O fato de fazer com que a audiência se perceba em um teatro, com o passar das horas torna-se até mesmo claustrofóbico. Talvez pelo jogo de luzes, pelo cenário quadrado e limitado, pela sensação de vazio a ser completado ou pela ausência de pormenores visuais. A verborragia dos personagens também contribui para essa sensação. Impossível não se sentir pressionado. Pressionado a tomar um lado, pressionado a reagir com o que acontece na tela, pressionado a se colocar como ser humano também, passível de bondade, ainda que disfarçada, e maldade extrema.
A direção não inova em enquadramentos ou passeios de câmera. O forte é a concepção como um todo e isso Von Trier constrói em cada cena. Quis chocar, confundir e questionar. E conseguiu. Por um lado, Dogville é uma idéia brilhante, por outro, um exercício de arrogância, qualidade, aliás, tão discutida no filme, e levada à prática por Von Trier. Seu trabalho é pretensioso sim, e por isso há divergências de olhares, de opiniões, de entendimento. Pessoalmente, acho este trabalho o mais bem colocado de sua carreira. Indigesto, brilhantemente – e de forma ousada – moldado e mais que nunca, necessário.
O elenco, encabeçado por Paul Bettany (Thomas Edison Jr) e Nicole Kidman (Grace) é mais um adendo á obra. O personagem Tom, um escritor cheio de teorias e sedento por uma afirmação moral e pública, demonstra vaidade e nobreza com o mesmo sentimento. Kidman deveria ter ganho outro Oscar por sua atuação nada caricata e convincente, e Lauren Bacall só reforça o óbvio: o tempo não tira o talento de que já é magistral, seja em qualquer papel, ou em qualquer época.
Dogville fala de abnegação, de altruísmo, instinto, vida em sociedade, e também o contrário disso, o oportunismo, a vaidade, a maldade, características intrínsecas a todo ser humano. Tudo isso é retratado seja pela desconfiança dos moradores da cidadezinha, pelo abuso sexual cometido para com Grace, ou na maledicência alheia. No fundo, primeiro o roteiro constrói personagens, o caráter. Em seguida os destrói, tira a máscara. Enquanto isso, “re-constrói” a personagem da Nicole Kidman, ainda que em pequenas nuances e com uma “re-estruturação” final brutal e apoteótica.
Dogville merece ser visto, comentado e dissecado. Sem nenhum preconceito estético, moral ou filosófico. Nada mais, por que Dogville é uma experiência. Enjoy!









