Reginaldo (Kaique de Jesus Santos) é um jovem que procura seu pai obsessivamente. Dario (Vinícius de Oliveira) sonha em se tornar jogador de futebol, mas, aos 18 anos, vê a idéia cada vez mais distante. Dinho (José Geraldo Rodrigues) dedica-se à religião. Dênis (João Baldasserini) enfrenta dificuldades em se manter, sendo também pai involuntário de um menino. O elo desses quatro garotos é Cleusa, a mãe que trabalha como doméstica e está grávida de mais um filho… De pai desconhecido.
As relações familiares e os sonhos de quatro garotos pobres na grande São Paulo são o mote de “Linha de Passe” (Brasil, 2008), que ganhou pré-estréia em Salvador no começo da semana, com direito a presença de Walter Salles e parte do elenco. Segundo o próprio Walter, o filme foge dos estereótipos que insistem em mostrar os jovens da periferia de maneira marginal. “Lá também existe gente do bem”, falou.
Quem quiser dar uma chance a “Linha de Passe”, vai acompanhar uma história urbana, com dramas reais, comuns à vida de qualquer pessoa. Os conflitos sociais da metrópoloe geram comportamentos distintos nos cinco personagens principais. Tudo foge do lugar-comum e serve para criar uma atitude de reflexão, também em quem vê. Não há “teatralismo”, músicas que forçam a emoção ou excessos na fotografia. A emoção vem naturalmente. Como a vida, os sentimentos de dor e a sensação de impotência, que brotam da tela nas quase 2h de projeção.
Após os belíssimos Central do Brasil (1998) e Diários de Motocicleta (2004), tinha a impressão que seria difícil para Salles encontrar um caminho reto, porém “Linha de Passe” vai além de uma ferida aberta, se coloca adiante das mazelas sociais, e encontra a esperança. “Cansei de filmes que matam pessoas… É hora de filmes que possam salvá-las”, desabafa o diretor. Para ele, a mensagem que chega ao espectador é de que é possível a mudança, e que ela começa na forma de se fazer cinema no Brasil.
Este é o 3º longa-metragem dirigido em parceria por Walter Salles e Daniela Thomas. Juntos, fizeram os elogiadíssimos “Terra Estrangeira” (1996) e “O Primeiro Dia” (1998). Para “Linha de Passe”, foram necessários tortuosos seis anos de trabalho: roteiro, pré-produção, acusações de plágio, elenco e patrocínio. O filme participou da 61ª edição do Festival de Cannes e sagrou-se vitorioso pela crítica especializada e ainda faturou o prêmio de Melhor Atriz, para Sandra Corveloni.
Salles e Thomas realizaram um projeto e tanto. Mostram um outro olhar, às vezes cru e cruel, de uma realidade que insistimos em não “tomar conta”. Os aplausos no final da projeção demonstraram isso. E são inquestionavelmente merecidos!

